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Crime organizado e eventos climáticos ampliam riscos para empresas e exigem novas estratégias de gestão

Durante a parte da manhã, painéis do SDGs in Brazil 2026, na sede da ONU em Nova York, evidenciaram como mudanças climáticas, crime organizado e novas exigências de mercado já afetam operações e decisões de investimento NOVA YORK, 18 de setembro de 2026 — A infiltração do crime organizado na economia formal deixou de ser […]

Durante a parte da manhã, painéis do SDGs in Brazil 2026, na sede da ONU em Nova York, evidenciaram como mudanças climáticas, crime organizado e novas exigências de mercado já afetam operações e decisões de investimento

NOVA YORK, 18 de setembro de 2026 — A infiltração do crime organizado na economia formal deixou de ser um risco hipotético e já alcança cadeias produtivas inteiras, enquanto eventos climáticos extremos provocam impactos financeiros de centenas de milhões de reais nas empresas. Os dois fenômenos estiveram entre os principais riscos discutidos na manhã desta sexta-feira (18) no SDGs in Brazil 2026, realizado pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, na sede das Nações Unidas, em Nova York.

“A infiltração do crime organizado na economia formal não é uma coisa distante. Isso já está acontecendo”, afirmou Eugênio Ricas, Director do Office of Internal Oversight da Interpol, durante entrevista conduzida pela jornalista Sandra Coutinho, correspondente internacional da TV Globo.

Ricas citou a Operação Carbono Oculto, realizada no Brasil, como exemplo da sofisticação desse movimento. Segundo ele, organizações criminosas deixaram de utilizar empresas apenas para lavar recursos ilícitos e passaram a se apropriar de diferentes etapas de cadeias produtivas. No setor de combustíveis, mencionou práticas que vão do furto e adulteração de combustível à lavagem de dinheiro e ao afastamento de concorrentes legítimos. “Não dá para concorrer com o crime organizado. O crime está anos à frente, ele não precisa respeitar regras, ele utiliza violência, ele utiliza intimidação, extorsão”, afirmou.

Nesse cenário, conhecer apenas os clientes já não é suficiente. Ricas defendeu que as empresas ampliem seus processos de due diligence a fornecedores, parceiros, funcionários e demais participantes da cadeia de valor. “É fundamental que todo o ecossistema de trabalho da empresa seja bem conhecido, bem mapeado, para que seja possível identificar os red flags”, ele disse.

Ricas alertou ainda que as empresas não tratem o due diligence simplesmente como um checkbox. “O due diligence é uma ferramenta de gestão de risco, uma ferramenta que vai propiciar aos gestores das empresas uma decisão mais acertada.”

A 5ª edição do SDGs in Brazil reúne mais de 200 lideranças empresariais, autoridades e especialistas para discutir resultados e desafios relacionados à sustentabilidade empresarial, direitos humanos, trabalho, meio ambiente e anticorrupção.

Realizado a quatro anos do prazo estabelecido pela Agenda 2030, o evento tem como mote “Toward 2030: Time to Prove It” e coloca no centro do debate a necessidade de transformar compromissos de sustentabilidade em resultados verificáveis, com dados, indicadores e rastreabilidade.

A programação da manhã discutiu  ainda como mudanças geopolíticas, novas regulações e a crescente cobrança por evidências estão redefinindo a agenda de sustentabilidade das empresas. Os debates abordaram as oportunidades e os riscos desse cenário para o Brasil, as novas exigências de investidores e mercados diante da chamada ESG fatigue, integridade corporativa e direitos humanos.

Mudança climática já afeta operação e investimentos

Os impactos da mudança climática sobre os negócios também estiveram no centro das discussões da manhã. Juliana Silva, Diretora de Sustentabilidade da Motiva, mostrou como o risco climático passou da agenda ambiental para a estratégia e a gestão financeira da companhia.

A Motiva inclui riscos climáticos em sua matriz de riscos corporativos desde 2021. Em 2023 e 2024, eventos extremos no litoral norte de São Paulo e no Rio Grande do Sul afetaram diretamente suas operações. No Sul, a empresa permaneceu por dez dias com a operação interrompida e precisou investir mais de R$ 500 milhões para reparar os danos em suas rodovias.

“Para vocês terem uma ideia de quão tangível, quão importante esse tema é, a gente ficou ali dez dias com a nossa operação parada no Rio Grande do Sul e teve que investir mais de R$ 500 milhões para reparar danos que tivemos nas nossas rodovias no Sul do país”, afirmou Juliana.

A empresa passou a precificar os possíveis impactos financeiros dos riscos climáticos e mapeou, quilômetro a quilômetro de suas rodovias e estação a estação de suas linhas de trens e metrôs, quase 8 mil ações de adaptação. O plano inclui desde reforço de manutenção e ajustes de drenagem até intervenções mais complexas. Um roadmap define quais medidas serão implementadas a cada ano e os recursos necessários.

A gestão combina medidas de curto e longo prazo. Previsões meteorológicas são enviadas diariamente aos centros de controle operacional para apoiar decisões como o bloqueio preventivo de trechos diante de chuvas intensas.

A agenda também chegou à remuneração dos funcionários: 5% do bônus anual de todos os trabalhadores está relacionado a metas de sustentabilidade e, dentro desse percentual, pelo menos uma meta por ano é vinculada à mudança climática. O avanço é acompanhado trimestralmente pela diretoria e pelo conselho.

Para Juliana, o resultado esperado vai além do cumprimento das metas. “Mais do que definir o número de ações que a gente quer ter implementado em cinco anos, é garantir que a gente vai ter um negócio mais resiliente e usuários seguros”, afirmou. O objetivo, acrescentou, é chegar a um cenário em que a empresa esteja preparada para evitar interrupções de suas operações provocadas pelas mudanças do clima.

O painel “A agenda ESG: o que o mercado exige como evidência agora” discutiu como empresas e investidores estão transformando riscos ambientais e sociais em critérios de gestão e alocação de capital. Além de Juliana Silva, participaram Dr. Domingo Zarzo Martinez, Director of Strategic Projects and Institutional Relations da SACYR Water, e Gerrity Lansing, Managing Director and Partner do BTG Pactual e Head of BTG Pactual Global Alternatives, com moderação de Renata Piazzon, CEO do Instituto Arapyaú.

Entre as iniciativas apresentadas, Lansing destacou a estratégia de reflorestamento do BTG Pactual e afirmou que a ambição é plantar 200 milhões de árvores no Brasil. Zarzo, por sua vez, defendeu que infraestrutura sustentável seja concebida dessa forma desde sua origem, considerando os ambientes natural e social nos quais os projetos estão inseridos, em vez de tentar descarbonizá-los posteriormente.

Da construção de consensos à entrega de resultados

A cobrança por evidências e resultados concretos marcou a abertura do SDGs in Brazil 2026. Para o embaixador Sérgio França Danese, Representante Permanente do Brasil junto às Nações Unidas, a Agenda 2030 entrou em uma nova etapa.

“O mundo ingressou em uma fase em que intenções já não bastam; é preciso acelerar o alcance de resultados concretos e verificáveis”, afirmou. “Passamos de uma fase de construção de consensos para uma fase de entrega. Essa talvez seja a melhor prova da maturidade alcançada pela Agenda 2030.”

Danese destacou ainda que responsabilidade social, governança ética e gestão ambiental deixaram de ser apenas diferenciais reputacionais e passaram a integrar a estratégia dos negócios. Segundo ele, há um déficit anual de cerca de US$ 4 trilhões para financiar o cumprimento dos ODS nos países em desenvolvimento, lacuna que não poderá ser preenchida apenas pelos governos e exigirá maior participação do setor privado.

Na abertura do encontro, Ana Paula Carracedo, Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, destacou que o cenário em que as empresas operam se tornou mais complexo desde o estabelecimento da Agenda 2030, com guerras, mudanças geopolíticas e a infiltração do crime organizado na economia. “Integridade e sustentabilidade caminham juntas. Não há sustentabilidade se a gente não tiver um mundo mais íntegro”, afirmou.

A mesma cobrança por resultados foi reforçada por Ollie Long Hansen, Chief of Global Operations do UN Global Compact. “Precisamos passar da ambição para a ação e a implementação. Compromissos, sozinhos, não vão produzir desenvolvimento sustentável”, afirmou. Para ele, liderança empresarial hoje passa por apresentar soluções reais e demonstrar resultados concretos.

Dados do Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2025, da ONU, mostram a dimensão do desafio: apenas 35% das metas dos ODS com dados disponíveis estão no caminho certo ou apresentam progresso moderado. Quase metade registra progresso insuficiente e 18% regrediram em relação à linha de base de 2015.

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