Segundo período do SDGs in Brazil 2026, realizado na sede da ONU, discutiu falência hídrica, uso responsável da inteligência artificial e caminhos para transformar compromissos de sustentabilidade em resultados NOVA YORK, 18 de setembro de 2026 — A escassez de água deixou de ser apenas um problema ambiental e já representa um risco para economias, […]
Segundo período do SDGs in Brazil 2026, realizado na sede da ONU, discutiu falência hídrica, uso responsável da inteligência artificial e caminhos para transformar compromissos de sustentabilidade em resultados
NOVA YORK, 18 de setembro de 2026 — A escassez de água deixou de ser apenas um problema ambiental e já representa um risco para economias, cadeias de suprimentos e empresas. Ao mesmo tempo, o avanço da inteligência artificial traz novas questões relacionadas a direitos humanos, vieses e responsabilização — e pode aumentar a pressão sobre os recursos hídricos com a expansão dos data centers.
Esses foram alguns dos temas que marcaram a programação da tarde da 5ª edição do SDGs in Brazil 2026, realizada nesta sexta-feira (18) pelo Pacto Global da ONU – Rede Brasil, na sede das Nações Unidas, em Nova York.
O risco da falência hídrica
Kaveh Madani, Diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), alertou que o planeta entrou em uma era de “falência hídrica global”, caracterizada pelo desequilíbrio entre o consumo de água e os recursos disponíveis e pela perda de capital natural que, em alguns casos, já não pode ser recuperado.
O fenômeno vai além da falta de água. Rios e lagos estão encolhendo, aquíferos são pressionados e fontes disponíveis podem se tornar inutilizáveis devido à contaminação. Ao mesmo tempo, cresce a demanda de setores como agricultura, indústria e tecnologia.
Para Madani, a água está se tornando um fator de risco para empresas e cadeias de suprimentos. Entre as respostas necessárias, ele defendeu políticas de mitigação e adaptação, uso de tecnologia, reformas regulatórias, financiamento e a criação de mecanismos capazes de monitorar o avanço da falência hídrica.
Leandro Marin, Vice-Presidente Regional da Aegea Saneamento, trouxe a discussão para a realidade brasileira. Ele destacou que a falta de coleta e tratamento de esgoto compromete fontes de água que poderiam estar disponíveis para a população e para atividades econômicas. Em grandes centros urbanos, rios e mananciais deixam de poder ser utilizados justamente pela contaminação por esgoto.
IA: eficiência também exige responsabilidade
O debate sobre água ganhou uma conexão inesperada no keynote seguinte. Dr. Calvin D. Lawrence, CEO da IntegrityFirst.AI, mudou parte da apresentação que havia preparado depois de acompanhar a discussão sobre falência hídrica.
Lawrence lembrou que, embora a inteligência artificial possa ser usada para identificar vazamentos e padrões anormais de consumo de água, sua expansão também aumenta a demanda pelo recurso: a infraestrutura computacional dos data centers utiliza grandes volumes de água para resfriar GPUs.
O centro de sua apresentação, porém, foi outro risco associado à tecnologia: “IA sem salvaguardas é uma questão de direitos humanos”, afirmou Lawrence.
Com cerca de duas décadas de experiência no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial, ele apresentou exemplos de como algoritmos podem reproduzir desigualdades mesmo quando ninguém deliberadamente os programa para discriminar.
Em um dos casos, Lawrence relatou a criação de um sistema destinado a apoiar decisões sobre pessoas que poderiam receber liberdade antecipada nos Estados Unidos. O modelo dava peso relevante ao histórico de prisões, mas os dados disponíveis não distinguiam adequadamente prisões de condenações.
“Ninguém entrou naquela sala dizendo: ‘vamos construir um algoritmo enviesado’. Mas esse é exatamente o ponto”, disse. “O viés não entra em um sistema de IA porque alguém pretende discriminar. Às vezes, ele entra pelas escolhas que fazemos sobre os dados.”
Para Lawrence, a discussão não implica frear a adoção da tecnologia, mas reconhecer que seus ganhos de produtividade e eficiência precisam vir acompanhados de responsabilidade e prestação de contas.
Direitos humanos e liderança empresarial
A relação entre decisões empresariais e direitos humanos também esteve no centro da apresentação de Erika George, Associate Dean Equity, Justice & Engagement da Boston University School of Law.
Erika abordou a responsabilidade das empresas diante de temas como diversidade, equidade e inclusão e argumentou que a agenda deve ser compreendida a partir da perspectiva dos direitos humanos, e não como uma tendência de gestão. “Isso não é apenas uma tendência. Não é apenas uma moda”, afirmou.
Em um momento de questionamento das políticas de DEI nos Estados Unidos, ela argumentou que recuar nesses compromissos não necessariamente reduz os riscos para as empresas e pode criar novos riscos ao enfraquecer o combate à discriminação. Para Erika, direitos humanos e não discriminação devem permanecer como referências para as decisões empresariais.
Da sustentabilidade para a escala
Se parte da tarde foi dedicada aos novos riscos, outro debate tratou de um problema mais conhecido pelas empresas: como transformar compromissos e projetos-piloto em iniciativas capazes de ganhar escala.
No painel “Acelerando Iniciativas Empresariais em prol do desenvolvimento sustentável”, representantes do Itaú Unibanco, Bradesco e Nestlé discutiram financiamento, colaboração e integração da sustentabilidade à estratégia de negócios.
Luciana Nicola, Sustainability Director do Itaú Unibanco e vice-presidente do Conselho Administrativo do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, destacou que um dos gargalos está em encontrar projetos suficientemente maduros para receber financiamento em escala. Ela citou, entre as iniciativas do banco, a emissão de um título de R$ 1 bilhão voltado à biodiversidade e uma operação de R$ 1 bilhão destinada ao saneamento.
Segundo Luciana, a agenda também deixou de ser responsabilidade exclusiva das áreas de sustentabilidade. O Itaú passou a capacitar sua força comercial para que os profissionais consigam identificar riscos, oportunidades e estruturas de financiamento relacionadas à transição dos clientes.
Silvana Machado, Diretora Executiva de Pessoas e Sustentabilidade do Bradesco, afirmou que sustentabilidade está incorporada à estratégia de negócios do banco e influencia decisões de investimento, gestão de riscos e geração de valor de longo prazo.
A agenda também está ligada à remuneração da liderança. Para Silvana, dois dos principais desafios para avançar são coordenação e implementação: governos, empresas, investidores e sociedade precisam atuar de forma articulada e acelerar a adoção de iniciativas que já demonstraram resultados.
Ana Carolina Carregaro, Director of Public Affairs da Nestlé, apresentou a agricultura regenerativa como exemplo de iniciativa que precisa combinar impacto ambiental e viabilidade econômica para ganhar escala. Em um programa com cerca de 800 produtores da cadeia leiteira, práticas regenerativas já alcançam 28 mil hectares e permitiram economia de 82 milhões de litros de água.
O financiamento, segundo ela, precisa ser adaptado às características de cada cadeia. A Nestlé vem trabalhando com instituições financeiras para ampliar o acesso dos produtores a crédito e acelerar a adoção dessas práticas.
O painel, moderado por Ana Fontes, Fundadora e Presidente da Rede Mulher Empreendedora, convergiu em três elementos necessários para levar soluções sustentáveis a uma escala maior: colaboração, inovação e financiamento.
Repensar o futuro
Na última apresentação do dia, Báyò Akomolafe, Host Teacher do Dancing with Mountains, propôs uma reflexão sobre as próprias premissas utilizadas para pensar desenvolvimento e futuro.
Akomolafe convidou o público a sair da lógica binária entre rejeitar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ou simplesmente aperfeiçoá-los. A partir de exemplos relacionados a trabalho, exaustão e sustentabilidade, propôs olhar para os desafios atuais por outros ângulos e questionar algumas das certezas que orientam a busca por soluções.
Do compromisso para a execução
No encerramento, Rodrigo Favetta, CFO e Diretor de Engajamento e Parcerias do Pacto Global – Rede Brasil, retomou um dos principais fios condutores do encontro: a distância entre assumir compromissos e demonstrar resultados.
Segundo ele, metas e ambições continuam importantes, mas empresas enfrentam uma cobrança crescente de mercados, reguladores e sociedade por evidências do que efetivamente estão fazendo. “2030 não é uma linha de chegada. É um marco do caminho, um ponto de checagem que nos obriga a fazer a pergunta mais desconfortável e mais necessária: onde avançamos na velocidade certa e onde não avançamos?”, afirmou.
Favetta defendeu que sustentabilidade deixe de ser tratada como uma agenda paralela e passe a fazer parte das decisões de estratégia, investimento e operação das empresas. “As empresas que vão liderar a próxima década não são as que têm um relatório de sustentabilidade mais bonito; são as que conseguem provar, com dado, com resultados, que sustentabilidade e performance de negócios estão na mesma equação”, disse.
E encerrou o encontro com um convite à execução: “Que o que foi dito aqui vire decisão na segunda-feira, investimento até o próximo trimestre, e resultado até o próximo SDGs in Brazil”.
O SDGs in Brazil 2026 reuniu cerca de 300 convidados na sede das Nações Unidas, em Nova York, entre lideranças empresariais, representantes do setor público, especialistas e organizações da sociedade civil. Sob o mote “Toward 2030: Time to Prove It”, a quinta edição do encontro colocou no centro da discussão a necessidade de transformar compromissos em resultados verificáveis.
Realizado às vésperas da Climate Week NYC e da abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, o SDGs in Brazil levou a agenda de sustentabilidade corporativa brasileira ao centro das discussões internacionais que mobilizam Nova York neste período.
Empresas que apoiam a operação e ampliam o impacto da Rede Brasil do Pacto Global da ONU.